Há mamas e mamas

Grávidas, puérperas, lactantes e despedidas.

É caso para dizer que mamar não tem mais encanto na hora da despedida.
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Grávidas, puérperas, lactantes e despedidas.

É caso para dizer que mamar não tem mais encanto na hora da despedida.

"Enches a sala de cascas de pinhões, não podes ir ao supermercado e comprá-los, como as pessoas normais?"
Não gosto de ser normal, não gosto de normas, nem de padrões.
Gosto muito de ter sido pai com 52 anos, gosto que o meu miúdo tenha quase todas as minhas qualidades (que são poucas) e quase nenhum dos meus defeitos (que são muitos).
Infelizmente, na inocência, dos dois anos, acredita, tal como o palerma do pai, que a recompensa resulta do trabalho.
Adora sair com o pai, de manhã, adora deixar as pinhas a secar, adora apanhar os pinhões, sob a copa das pinheiras.
" 'tá qui um, papá" diz, com um sorriso que faz com que tudo valha a pena.
Gostamos de chegar a casa, cansados, felizes, com o nosso tesouro, num saco de papel.
Gostamos de partir os pinhões e saborear-lhes o interior, sabe-me, sabe-nos melhor, trabalhámos em conjunto para obter um resultado que, também, resulta numa recompensa que nos satisfaz a ambos.

A nossa vida, tal como os antigos postes telefónicos, é um emaranhado de fios.
Fios que nos ligam ao passado, fios que nos prendem no presente mas, também, fios que nos amparam o futuro.
Há alturas na vida em que temos de tomar decisões, podem não nos beneficiar, individualmente, serão, de certeza, as mais adequadas para os nossos, para aqueles que cuidamos e que, de alguma forma, nos fazem ser quem somos.
Sorrio, admiro-me da minha própria habilidade, chamemos-lhe antes capacidade, de de uma superfíce, anteriormente, enrugada, insubmissa, vincada, arisca até, direi, conseguir fazer algo bom, conseguir fazer algo belo.
Releio o primeiro parágrafo e penso: "começas bem, começas, auto-elogios, «de de ?» onde é que já viste essa construção frásica mal amanhada? e qual cerveja no topo do tolo, a citação do poeta Artur Jorge «vamos fazer coisas boas, vamos fazer coisas belas».
Enfim.
A manhã começou com um cesto gigantesco de roupa para engomar e com três desportivos para ler.
Como é que um homem se pode concentrar nas coisas boas da vida se ao meio-dia tem o Celta vs. Barcelona para ver mas antes disso tem de se preocupar com a trivialidade dos trapos?
Qual Vulcano a malhar em ferro quente, assim passei esta manhã, a malhar com o ferro em roupa fria, imbuído na sabedoria ancestral dos deuses que dominavam as forjas.
Trabalho perfeito, mas efémero, aquela camisa ali pendurada, perfeitamente, desvincada, lisa, perfeita, com um vinco imaculado na manga direita e outro irrepreensível na manga esquerda; segunda-feira será sujeita ao cinto do carro, ao espojamento na cadeira do trabalho, outra vez ao cinto do carro, a uma nódoa de azeite do bacalhau com grão, ao cinto do carro, à cadeira, ao cinto do carro.
Tal como a água de Heráclito, a camisa que despimos nunca é igual à camisa que vestimos.
Sorrio e orgulho-me do meu, suposto, perfeccionismo, apesar de tudo ser tão efémero.
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