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25
Mar24

Petra Chain, mãos de seda

Pedro Oliveira

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Chamava-se Chain, Petra Chain.

Tinha cinquenta e poucos anos quando se iniciou nos blogs, tinha um blog em blogspot.com.

Anos mais tarde, muitos anos mais tarde, descobriu a plataforma dog.pt [nome fictício].

Na juventude, Petra, tinha sido uma mulher importante, tal como os homens teciam palavras e as publicavam em jornais e livros, ela tecera fios.

Finos fios de seda, com paciência, com lagartas, com casulos, fios que eram tecidos com mãos ágeis e com sabedoria.

Fios que faziam tecidos, tecidos que faziam roupas, roupas que faziam a felicidade de quem os vestia.

Os bichos da seda bicharam, deixaram de se reproduzir.

O trabalho, a arte de Petra, morreu.

A paciência, a agilidade e a sabedoria de Petra não morreram, canalizou-as para a escrita, passou a tecer palavras, como os homens.

Os anos de juventude tinham passado mas a fama ainda não chegara.

Tornou-se famosa nos blogs, primeiro no estrangeiro mas , principalmente, na plataforma portuguesa.

Adorava escrever, adorava ser lida, adorava comentar gostava ainda mais de ser comentada.

Quanto descobriu que a dog.pt tinha um contador de comentários, o hot-dog, Petra não se ficou.

Adorava ser a primeira, sabia que os comentários eram considerados até à meia-noite, dormia uma boa sesta, às vezes, até às sete da tarde, para estar fresca à noite.

A partir das 22h00 verificava os comentários no seu post do dia e nos outros, nos mais votados.

Por vezes Petra estava em desvantagem com cerca de vinte comentários a menos, nunca desanimava.

Criava nicks como comadre Miquelina, compadre Ambrósio, comentava, respondia aos comentários que ela própria fizera com outros nomes, escrevia uns comentários no telemóvel outros no computador, dizia: "sua velha"; respondia: "eu não sou velha". Punha bonecos com sorrisos ou com polegares para cima, respondia com caras feias ou com polegares para baixo.

No final da noite era sempre a mais comentada, a hot-dog.

Era famosa, era boa escritora, estava feliz.

Ontem deitou-se com um sorriso nos lábios engelhados, fora a mais comentada durante o fim-de-semana.

Hoje a hot-dog, não aqueceu, não mais aquecerá, hoje não haverá post nem competição, o corpo arrefece e será fechado num casulo, como aqueles que ela desfiara na juventude.

A fama é sempre efémera nem sempre a lagarta se transforma em borboleta.

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