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encruzilhamento

encruzilhada, alheamento, espaço, tempo, momento

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24
Mai20

O pai e o pesa-almas

Pedro Oliveira

IMG_20200524_135815 (2).jpg

Há quem lhe chame pediatra, prefiro chamá-lo pesa-almas, pesa o corpo do bebé mas nesse simples gesto de pegar no meu filho, com dois dias de vida, colocá-lo na balança, é a minha alma que está a ser pesada, a minha competência, a capacidade de cuidar, de alimentar a fragilidade (mais a minha que a dele) acabada de nascer.

Serei um bom pai?

Para que me meti eu nisto?

Duas perguntas sem resposta.

Se ainda tivesse a guedelha da minha juventude atiraria com ela para trás num rápido movimento e responderia à jogador de futebol: "vou dar o meu melhor, amanhã é outro dia, temos de levantar a cabeça".

Assisti a tanta conferência de imprensa, a tantas falas, de malta do futebol, escritas pelo mesmo guionista, que só me ocorre; "hoje chorou muito, amanhã pode ser melhor".

Chorar faz parte de ser sportinguista, ser resistente (odeio os neologismos; resiliente, proactivo e outras importações manhosas para a nossa Língua), ser esforçado, ser dedicado e acima de tudo ter esperança, é a essência do sportinguismo.

Reparo agora que infere-se do parágrafo anterior que é mais importante ter do que ser, depende daquilo que estivermos a falar, os valores que vou tentar passar ao meu filho (nasceu a 20.05.20) é que é mais importante, mais digno, ser uma rica pessoa do que ter riqueza (se puder conciliar as duas, melhor). 

O corpo do meu menino tinha o peso certo, a minha alma não sei se estará à altura do desafio.        

09
Jun19

Já não há estrelas na Céu

Pedro Oliveira

20190609_132257.jpg

Num momento somos uma Secretária de Estado, no momento seguinte somos uma caixa de bolachas no saco do lixo.

A vida que escolhemos prega-nos partidas.

A palavra "pregar" não foi escolhida ao acaso, pode ser o pregar do blá, blá, blá ou o pregar do assumir, do fixar, do espetar, do ser.

Infelizmente, há pessoas, muitas pessoas, que preferem parecer (colocam botox para parecer mais novas, colocam sorrisos para serem mais queridas, colocam apoios para serem escolhidas no futuro) do que ser, serem, pessoas íntegras.

Ser secretária de estado significa estar ao serviço do povo, ao serviço do estado.

Ser secretária de estado do serviço regional é mais próximo ainda, pessoas que estão ao serviço do estado, que pela sua actuação, pela sua vida, pelo seu percurso, sempre mostraram que primeiro estão as pessoas, os seus anseios, as suas propriedades, o interesse individual na criação dum bem maior, dum bem comum.

Dum lado a cacique, quem a apoia e quem a desculpa; do outro o povo, aqueles que acham que a terra é de quem a compra e não de quem a "rouba/furta".

Às vezes na vida temos de escolher de que lado estamos.

14
Jun18

Na minha barriga mando eu

Pedro Oliveira

20180302_132246 (1)Como resistir ao irresistível?

Pão, vinho, azeitonas, queijo, a lista podia continuar.

Cada um de nós é ele próprio e a sua circunstância, a minha circunstância é ter nascido numa cultura judaico-cristã, mediterrânica, as missas na infância, o pão e o vinho como parte do sagrado, este é o meu corpo, comei, este é meu sangue, bebei; bem podem agora dizer-me que comer pão e beber vinho é comer glúten com sulfitos, a criança que fui não quer saber, não foi isso que aprendi com três ou quatro anos e Jesus nunca falou de sulfitos, nem de glúten.

Outra coisa muito judaico-cristã, a culpa (e a desculpa).

Sinto-me culpado pela minha barriga?

Sim.

Gostaria de ter o mesmo corpo que tinha aos 18, 19 anos quando andava, feito maluco, a correr pela Tapada de Mafra com uma G3 às costas e um caderno no bolso da perna esquerda das calças onde ia apontando o armamento do "Pacto de Varsóvia" e a distância a que uma G3 podia abater um avião russo ou da Alemanha democrática; o Muro cairia pouco depois e junto à minha perna esquerda acumularam-se linhas e linhas de conhecimento inútil.

O corpo é como o tempo, não volta para trás, podemos enxertar cabelo ou passarmos manhãs inteiras pendurados em cordas tipo Tarzões de calções de lycra que não voltamos a ter dezoito anos.

Deixem-me então (cá está a desculpa) com o meu pouco cabelo, a minha barriga (que já foi maior) que eu vou continuar a fazer como o Malhão, Malhão... "comer e beber, passear na rua".

02
Dez17

a efemeridade

Pedro Oliveira

Sorrio, admiro-me da minha própria habilidade, chamemos-lhe antes capacidade, de de uma superfíce, anteriormente, enrugada, insubmissa, vincada, arisca até, direi, conseguir fazer algo bom, conseguir fazer algo belo.

Releio o primeiro parágrafo e penso: "começas bem, começas, auto-elogios, «de de ?» onde é que já viste essa construção frásica mal amanhada? e qual cerveja no topo do tolo, a citação do poeta Artur Jorge «vamos fazer coisas boas, vamos fazer coisas belas».

Enfim.

A manhã começou com um cesto gigantesco de roupa para engomar e com três desportivos para ler.

Como é que um homem se pode concentrar nas coisas boas da vida se ao meio-dia tem o Celta vs. Barcelona para ver mas antes disso tem de se preocupar com a trivialidade dos trapos?

Qual Vulcano a malhar em ferro quente, assim passei esta manhã, a malhar com o ferro em roupa fria, imbuído na sabedoria ancestral dos deuses que dominavam as forjas.

Trabalho perfeito, mas efémero, aquela camisa ali pendurada, perfeitamente, desvincada, lisa, perfeita, com um vinco imaculado na manga direita e outro irrepreensível na manga esquerda; segunda-feira será sujeita ao cinto do carro, ao espojamento na cadeira do trabalho, outra vez ao cinto do carro, a uma nódoa de azeite do bacalhau com grão, ao cinto do carro, à cadeira, ao cinto do carro.

Tal como a água de Heráclito, a camisa que despimos nunca é igual à camisa que vestimos.

Sorrio e orgulho-me do meu, suposto, perfeccionismo, apesar de tudo ser tão efémero.

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